Silêncio insuportável
Pediram para colocar textos curtos, mas um texto precisa do tamanho que ele precisa para dizer o que tem que dizer, como afirmava o meu professor Paulo Guedes. Quem estiver a fim, leia os trechos que selecionei.
CARTA CAPITAL
O silêncio dos influenciáveis
Gilson Caroni Filho - Professor titular das Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA)
Como reagiria a opinião pública de uma nação soberana se tomasse conhecimento, por meio de conceituada publicação jornalística, que sua Polícia Federal foi comprada por serviços de inteligência de um país estrangeiro? Que as instituições republicanas são inteiramente controladas por redes de espionagem, e setores expressivos da imprensa local cooptados para produzir uma imagem favorável aos interesses da potência controladora? Seria impossível conter o terremoto político advindo de tais revelações, salvo se um isolamento acústico fosse imediatamente construído por aqueles que elaboram a agenda da opinião pública. E é nesse ponto, no silêncio consensual do complexo midiático, que reside a atualidade deste pequeno artigo.
Reportagem de capa da edição de CartaCapital, com data de 19/3/2004 ,traz à tona um personagem que poderia ter saído das páginas de qualquer romance de John Le Carré. Versão tão patética quanto real do "espião que sabia demais", o português naturalizado americano Carlos Costa chefiou o FBI no Brasil de 1999 a outubro de 2003.
(...)
A título de exemplo, por que a denúncia da revista dirigida por Mino Carta não provoca a mesma comoção que o destempero do ministro José Dirceu em entrevista ao jornalista Merval Pereira, de O Globo?
Desde sua publicação, o espaço concedido à reportagem de Bob Fernandes foi praticamente inexistente. Uma ou outra nota, até o abafamento total. Qual será o motivo do silêncio reinante nas redações dos principais jornais e revistas do eixo Rio-São Paulo quando o assunto é a ingerência imperialista na política brasileira?
(...)
Talvez o desdobramento mais importante da matéria de capa da revista CartaCapital (19/3/2004) seja a ausência de desdobramentos. O silêncio gritante do resto da mídia realça ainda mais as palavras do agente Carlos Costa, quando define a ação dos serviços secretos sobre os seus diletos profissionais de redação: "Influenciar é mudar o pensamento contrário aos nossos interesses".
Talvez isso nos ajude a entender o arrazoado de certos colunistas em defesa da Alca, talvez compreendamos com mais facilidade os princípios que norteiam articulistas zelosos na defesa da política externa americana. Quem sabe esteja desnudada a política editorial de várias publicações.
Alguém pode retrucar que a argumentação desenvolvida no parágrafo acima é simplificadora. Certamente. Mas, enquanto os "influenciáveis" não romperem seu pacto de silêncio, qualquer teoria conspiratória terá relevância analítica. Ou repetindo a sabedoria do senso comum: "Quem cala, consente". Just do it.

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